Infantário Flor da Manhã
Creche em contexto rural moçambicano
Descrição
Partindo de um princípio primitivo, o projeto responde ao contexto rural de Chongoene, no sul de Moçambique - uma planície de baixa densidade populacional com clima tropical húmido. A abordagem arcaica inscreve uma constelação gráfica no terreno, criada pela conexão dos elementos naturais presentes, transformando-o numa nova topografia programática. Os planos e volumes exploram a teoria de Gottfried Semper: o solo estereotómico, a cobertura tectónica e o muro têxtil. O depósito de água e a chaminé da cozinha aberta destacam-se no conjunto, enquanto a cozinha fechada assume uma forma de abobadilha em adobe. Os planos verticais são construídos em blocos de terra compactada in-situ (BTC) e as coberturas em palha suportadas por estrutura de madeira. Os elementos programáticos distribuem-se horizontalmente numa disposição que explora a abstração ortogonal, fechando-se através do polivalente paralelo à estrada e abrindo-se a Oeste e Norte, às hortas. As salas agrupam-se no extremo Sul com luz indireta, enquanto o berçário ocupa uma zona central próxima da enfermaria.
Comentário Pessoal
Esta proposta foi desenvolvida para a cadeira de Projeto V/I, refletindo sobre o projeto da Escola Clandestina de Pancho Guedes (1968) e as obras de Francis Kéré.
O Primeiro Dia
"O meu nome é Rungo Silva dos Santos, tenho 6 anos e hoje é o primeiro meu primeiro dia na creche. Cheguei com a minha mãe e o meu irmão José que nasceu no Natal do ano passado. A creche é muito grande e divertida, é tudo feito por pessoas e as paredes podia ter sido eu a fazer. Gosto de subir às árvores e gosto muito da creche porque posso brincar nas árvores. Quando entrei não sabia que era tão grande por dentro, o senhor Rui é o guarda da escola, a minha mãe falou com ele por causa do meu irmão José. Subi o caminho e fui brincar na árvore e correr com a Maria. Jogámos à apanhada à solta das salas e ela nunca me apanhou. O senhor Rui chamou-me e despedi-me da minha mãe. Enquanto me levava para a sala reparei no chão de terra de outra cor com quadrados e bolas pintados. Quando voltei a subir com o senhor Rui vi que estava gente no salão e ouvia-se uma música baixinho. Cheguei à sala dos maiores e a professora estava à minha espera, quando abriu a porta estava tudo escuro e não via nada, levou-me com a mão e deu-me uma almofada para dormir disse que ia ter tempo de brincar mais tarde."— Rungo Silva dos Santos, 6 anos
Cidades Invisíveis
"“Mesmo em Raissa, cidade triste, corre um fio invisível que liga um ser vivo a outro por um instante e a seguir se desfaz, e depois torna a estender-se entre pontos em movimento desenhando novas rápidas figuras de modo que a cada segundo a cidade infeliz contém uma cidade feliz que nem sequer sabe que existe.” "— Italo Calvino
"“A arquitectura não é sentida como uma experiência intelectual, mas como uma sensação - uma emoção. Os edifícios devem tornar-se presenças - ser como enormes monstros apocalípticos ou como albatrozes pairando pesadamente.”"— Pancho Guedes
Características
- Construção com materiais locais e técnicas vernaculares
- Integração com elementos naturais do terreno
- Organização espacial adaptada ao clima tropical
- Espaços lúdicos integrados na natureza
Tags
Especificações
Construção
- −Paredes em blocos de terra compactada (BTC)
- −Coberturas em palha com estrutura de madeira
- −Elementos em adobe (cozinha e espaços lúdicos)
- −Depósito de água e chaminé como elementos pontuais
Sistemas
- −Ventilação natural cruzada
- −Iluminação indireta nas salas
- −Berçário centralizado junto à enfermaria
- −Espaço polivalente como filtro de entrada